entrevista01/05/2012
Guia dos estudantes
O publicitário Daniel Pimenta dá dicas de como entrar no mercado de trabalho
Por Renata de Salvi
Há 16 anos no mercado publicitário, Daniel Pimenta percebeu uma lacuna na formação dos jovens estudantes. Faltava a eles entender até mesmo como são os bastidores das agências de propaganda. Por isso, os futuros publicitários não sabiam como buscar suas primeiras colocações, o que acrescentar no currículo e como se preparar para ser páreo à concorrência. O caminho tortuoso, trilhado por ele há alguns anos, foi discutido em cerca de 20 palestras. Recentemente, as dicas para conquistar um lugar ao sol na tão sonhada carreira transformou-se no livro “Como Ingressar no Mercado Publicitário - Para Estudantes e Interessados em Trabalhar em Agências de Propaganda” (Difusão Editora e Senac Editora). A seguir, ele divide os principais conselhos para entrar com o pé direito nas agências de propaganda.
Você começou a dar dicas para os estudantes que cursavam Publicidade e Propaganda há algum tempo. Como notou essa necessidade dos jovens talentos?
Notei essa necessidade com o tipo de perguntas que os estudantes me faziam. Queriam saber como estabelecer contato com as agências para apresentar seus trabalhos, entender o que faz cada departamento e quais softwares deveriam dominar. Por outro lado, algumas dúvidas levantadas eram pouco importantes, como saber se era melhor enviar o currículo em documento de Word ou em extensão PDF. Concluí que não tinham noção do que era realmente importante saber. Daí a necessidade das orientações e das dicas.
Quais são as questões que os estudantes levantavam em suas palestras?
Perguntas relativas às atividades do departamento de criação, aos primeiros contatos com as agências, à elaboração do portfólio e ao salário de um publicitário.
Como você reuniu as principais dúvidas dos estudantes para produzir o livro?
Foi um trabalho de anos de observação, incluindo as minhas próprias dúvidas iniciais. Em sala de aula, ouvi muitos questionamentos dos alunos. A época da faculdade é um período de incertezas. A partir delas, realizei duas pesquisas de campo ¨C uma delas com os fornecedores das agências, como gráficas, estamparias, empresas de outdoor e de comunicação visual. Organizei as visitas em relatórios diários. Assim compilei as informações técnicas em uma linguagem mais simples. A outra pesquisa foi feita com dezenas de agências de propaganda. Elaborei um questionário com nove perguntas e solicitei aos responsáveis pelas agências que me respondessem baseados na realidade deles. O objetivo foi, basicamente, desvendar o que as agências pensam, extraindo a opinião delas acerca dos estudantes recém-formados e descobrindo o que é necessário para ocupar uma vaga.
Em sua opinião, essas dúvidas deveriam ser sanadas na própria faculdade?
Deveriam sim. A iniciativa poderia partir do próprio estudante: demonstrar interesse é mais do que uma qualidade, é um grande passo para começar bem na carreira. Os professores estão sempre de prontidão para esclarecimentos. Mas é preferível tirar dúvidas com quem, além de dar aula, também atua no mercado publicitário.
Na época em que era estudante, sentiu falta de alguém que trouxesse diretrizes para algumas escolhas na sua carreira? Como conseguiu driblar essas dificuldades?
Senti sim. As dificuldades foram superadas a partir da descoberta dos erros. Certamente minha determinação por saber em qual área ¨C a criação ¨C desejava trabalhar ajudou muito. Consegui atravessar o período crítico do início de carreira ao considerar a humildade como fonte de sabedoria. Tirei lição de cada obstáculo enfrentado. Essa superação germinou a essência da palestra “Como ingressar no mercado publicitário” e, posteriormente, do livro.
Como foi sua entrada na área?
Foi complicado e exaustivo. Marcava várias entrevistas de emprego e percebi que desconhecia o que, de fato, as agências precisavam.
Já havia alguém da família que atuava como publicitário?
Não havia nenhum publicitário na família. A persistência supriu a falta.
Por quanto tempo teve que persistir para conseguir as primeiras oportunidades?
Eu até consegui estágio e emprego em agências de propaganda, enquanto eu cursava a faculdade, mas não no departamento que desejava: a criação. Somente meses depois de formado consegui me associar a um colega para trabalharmos juntos, já desempenhando a função que queria. Daí em diante, foi questão de desenvolver minhas habilidades até que, um dia, ingressei em uma agência melhor estruturada. E assim fui agregando conhecimentos e ganhando segurança para trabalhar em agências melhores ainda.
Como foi o processo para trilhar seu caminho profissional? O essencial era a análise do salário, do nome da agência ou a carteira de clientes a ser atendida?
O processo foi baseado na vontade de aprender e na determinação da minha meta. Existe um trio de análise na hora de estudar uma possibilidade de emprego: a função, o ambiente de trabalho e o salário. Quando recém-formado, eu não estava em condições de escolher a agência pelo nome dela no mercado ou pela carteira de clientes. Tinha que aproveitar as chances que surgiam. Mas com o passar dos anos, foi mais fácil identificar as oportunidades mais interessantes e, inclusive, negociar melhor o salário. Entretanto, a função a ser exercida sempre priorizou a preferência de um emprego.
Em um trecho do livro, fala-se muito em preparação. Quem for mais preparado e tiver mais estudo, estaria à frente de quem não tem um currículo tão extenso. Mas, em muitas áreas, sobretudo na propaganda, vemos que nem sempre é esse o critério. Fala-se muito em ser bem relacionado. Como o estudante pode, então, conseguir um lugar ao sol ao lado de grandes nomes da comunicação?
É bem verdade que o melhor preparado não significa ser o que tem mais chance. Boa preparação pode ser insuficiente para conquistar a vaga. Para que o preparo seja aproveitado, entra em cena o fator networking. Pode acontecer, sim, do mais indicado ter mais sucesso, já que ele aparece mais nas vitrines do mercado. Conversei com muitos donos de agência e eles afirmam que o Q.I (quem indica) é a primeira fonte de pesquisa na procura por um profissional. Sendo bem qualificado e visível, as oportunidades se multiplicam.
Assim como você, muitos estudantes não conhecem pessoas próximas que atuem na área. Neste caso, como conseguir aparecer nesta “vitrine do mercado”?
Uma maneira de aparecer é realizando o maior número possível de entrevistas, pois delas é possível anotar outros contatos, outras indicações. Mas também é interessante participar de eventos da área publicitária: festivais, encontros, palestras ou concursos. Mesmo que não esteja inscrito, é bom estar presente nessas reuniões. São ocasiões propícias para formar amizades com pessoas do ramo. O objetivo é tecer a teia de relacionamentos profissionais, o famoso networking.
Com tanta concorrência, o que é primordial no currículo, no portfólio e na entrevista para que o estudante passe uma boa impressão?
O currículo deve conter o objetivo muito claro. Observei que muitos não deixavam nítida a função. É importante fazer uma revisão para evitar erros de português ou digitação. Existem algumas regras que podem valorizar o portfólio, como: apresentar cada peça na proporção de uma página dupla de revista; colocar a melhor peça em primeiro lugar e continuar da menos atrativa até chegar à segunda melhor; e saber “enxugar” o anúncio retirando informações que poluam o layout. Quanto à entrevista, existe uma série de cuidados para não comprometer a imagem do candidato, como ser pontual, vestir-se com discrição, dar respostas objetivas e breves, evitar falar mal dos outros, desligar o celular e levantar informações sobre a agência antes de comparecer à entrevista.
Cada vez mais, a comunicação amplia suas ferramentas e oportunidades. Em um mundo em constante inovação, o que é essencial para alguém que deseja fazer carreira em agências de propaganda?
O essencial mesmo é manter o foco na função escolhida. Por mais inovações que surjam, o objetivo profissional deve ser bem claro. Uma vez esclarecido, parte-se para a especialização. Se quiser ser redator, leia muito, analise conceitos, escreva com criatividade. Se o cargo pretendido for a direção de arte, domine os programas gráficos, deixe-se influenciar por belos layouts, desenvolva a boa estética. Ou seja, descobrir seu cargo é o trampolim para o salto na carreira.
No livro, existe a alusão de que, como em outros mercados, no de emprego, os produtos somos nós. Quais são as principais preocupações que um estudante deve ter ao procurar uma colocação?
A preocupação com sua imagem profissional. O candidato é comparável a um produto. Para ser desejado, é preciso ter alta qualidade, estar disponível em regiões prósperas, mensurar um preço viável de negociação e cuidar para que o impacto visual não seja negativo. Ou seja, o estudante de publicidade deve ter capacidade para exercer a função escolhida, tentar trabalho em cidades de médio e grande porte, estabelecer valor de salário e evitar a aparência muito chamativa.









